O LADRAR DO MERDOCK

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(em cima)


Não se assustem com o ladrar do Merdock.
Ele só embirra com polícias, guardas fiscais,
guardas republicanos e outras fardas!...



sexta-feira, 4 de junho de 2010

O LICEU NACIONAL DE FARO



Na década que seguiu o pós-guerra, Portugal acrescentou um enorme atraso em relação a países para onde, em breve, ia começar uma forte emigração de mão d’obra não qualificada e indiferenciada. O país encontrava-se num calamitoso estado de míngua, em todas as suas vertentes: económica, social e cultural.
O grau de escolaridade dos portugueses era muito baixo.
O analfabetismo reinava por todo o lado, especialmente entre os rurais, os pescadores e os mais pobres das cidades e vilas. O Algarve não fugia a esta regra. Havia apenas um liceu, em toda província, a ministrar o antigo 7º ano!
Esse último grau de ensino secundário dava acesso às poucas faculdades que o país tinha: Lisboa, Porto e Coimbra. Nos anos do Merdock, não seriam mais de cem, os alunos desse último ano do ensino secundário. Mesmo contando os poucos colégios que havia na Província e os moços ou moças que, por uma qualquer razão pontual, faziam o ensino liceal noutras cidades do país, o número de licenciados com que o Algarve contribuía para o total nacional, era reduzido. Mas, mesmo assim, fácil é perceber a grande importância do Liceu de Faro. Muitos desses ex-alunos, em breve iriam exercer cargos de revelo, professores, advogados, médicos, engenheiros, militares, potenciais políticos. 
Os acontecimentos que rodearam o Merdock, tiveram origem nesse estabelecimento de ensino e, por certo, de uma maneira ou de outra, terão despertado algumas consciências.

domingo, 23 de maio de 2010

ALEGORIAS PARA QUÊ?


OPINIÃO (1)
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Embora não tenha sido aluno no liceu de Faro, nos últimos anos e na qualidade de sociólogo, dediquei tempo de estudo ao fenómeno q.b. Merdock e ao acto da sua libertação, precedida dos ingredentes determinantes da gesta estudantil. No subentendido fica que, a "geração espontânea" não é, normalmente, consequência da espontaneidade e tem sempre um justificativo geracional.
Defendi a tese Merdockiana num recente "fórum" em que participei, realizado na Biblioteca Municipal de Faro localizada onde, em tempos, se situava o canil do qual o Merdock foi libertado.
Esta conferência ocorreu aquando da comemoração do cinquentenário do memorável acto, tendo sido apresentado ao público a narrativa da saga do Merdock, "Merdock, um cão em Faro nos anos 50", da autoria de Vieira Calado.
Quer se goste ou não do que aconteceu em Fevereiro de 1954, de acordo com estudos preliminares, sendo prematuro na actual fase, ou mesmo excessivo, falar-se em Merdockologia, tratou-se de um fenómeno emergente, de natureza social, protagonizado por jovens liceais.
Tentar desvanecer ou obliterar a tendência libertadora desta acção, seria, no mínimo, uma investida redutora dessa mais valia Algarviana, que teve repercussões sentidas a nível Nacional, 20 anos depois, com o movimento do 25 de Abril, onde estiveram figuras liderantes originárias do Algarve.
Pelo princípio do contraditório, ainda hoje se fazem ouvir comentários de rua, que valem o que valem para quem os produz, tentando denegrir o quase-ícone Merdockiano ou até denegando a sua existência como símbolo da liberdade. E, isso afigura-se ser um grave atentado, em termos sociológicos.
Hélio

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A NOTA DE VINTE PAUS


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Nos tempos do Merdock (1953/54/55), a nota de vinte paus era a de maior circulação.
Uma refeição custava sete e quinhentos, ou nem isso.
Um bolo de arroz ou um pastel de nata, oito ou dez tostões.
Com vinte e nove tostões = dois mil e novecentos (réis) = dois escudos e noventa centavos, comprava-se um maço de cigarros (Três Vintes, Sporting, Português Suave, ou Paris, por exemplo).
Um bilhete de cinema ou circo, andaria pelos três ou quatro escudos.
Um copo de vinho, 5 tostões; uma caixa de fósforos, um cruzado (quatro tostões).
Dez tostões (um escudo) era o preço a pagar por um jornal diário (República, Diário de Notícias, Século, Diário de Lisboa, 1º de Janeiro…), ou por um selo de circulação nacional, e dez ou doze tostões, por um café. Entre os três e os oito tostões, um cálice de bagaço ou de medronho (conforme era bebido em tasca ou Café.).
Vinte paus dava para isto tudo e ainda sobrava dinheiro…
 .
* As licenças e a chapa de identidade a que o Merdock se viu obrigado (para ter direito a cidadania plena), custaram uns 6 paus. Este dinheiro foi pago com a subscrição feita entre alunos e professores, para libertá-lo da prisa. Ainda sobrou muito. Escusado será dizer que foi gasto pelos promotores da libertação (e alguns oportunistas que se colaram, mas nada tinham feito), em bagaços e medronhos!…  

domingo, 9 de maio de 2010



Na década que seguiu o pós-guerra, Portugal acrescentou um enorme atraso em relação a países para onde, em breve, iria começar uma forte emigração de mão d’obra não qualificada e indiferenciada. 
O país encontrava-se num calamitoso estado de míngua, em todas as suas vertentes: económica, social e cultural.
O grau de escolaridade dos portugueses era muito baixo. O analfabetismo reinava por todo o lado,
especialmente entre os rurais, os pescadores e os mais pobres das cidades e vilas.
O Algarve não fugia a esta regra. Havia apenas um liceu, em toda província, a ministrar o antigo 7º ano!
Esse último grau de ensino secundário era o único que dava acesso às poucas faculdades que o país tinha:
Lisboa, Porto e Coimbra.
Nos anos do Merdock, não seriam mais de cem, os alunos desse último ano do ensino secundário.
Mesmo contando os poucos colégios que havia na Província e os moços ou moças que, por uma qualquer razão pontual, faziam o ensino liceal noutras cidades do país, o número de licenciados
com que o Algarve contribuía para o total nacional, era reduzido. Mas, mesmo assim,
fácil é perceber a grande importância do Liceu de Faro, pelo menos a nível da Região.
Muitos desses ex-alunos, em breve iriam exercer cargos de revelo, professores, advogados, médicos, engenheiros, militares, potenciais políticos.
Os acontecimentos que rodearam o Merdock, tiveram origem nesse estabelecimento de ensino e, por certo, de uma maneira ou de outra, terão despertado algumas consciências.

sábado, 24 de abril de 2010

Personagens da Época

Poetas de Faro


Em Faro, nos tempos do Merdock, havia um poeta consagrado: Cândido Guerreiro, muito reconhecido, na época.
E um outro, que havia de ser um dos maiores da Poesia Portuguesa, ainda a ensaiar os primeiros passos:
António Ramos Rosa.
Cândido Guerreiro era natural de Alte, mas estudou no Liceu de Faro e faleceu nesta cidade, em 1953, o ano que marcou o princípio da estória do Merdock. Morava perto do Liceu e frequentemente trocava impressões com alunos.
Ramos Rosa nasceu em Faro e só veio a publicar o seu primeiro livro de poemas "O Grito Claro", em 1958.
Depois havia outros, mais ou menos obscuros, ou menores. Ou os emergentes, que, mais tarde, teriam o seu lugar na Grande Poesia.
E também não posso deixar de relembrar esse grande repentista, o Aleixo, falecido anos antes, mas que perdurava na memória, pois passava frequentemente por Faro, na sua rota de andarilho a vender cautelas.
E um sujeito de que não me lembro o nome, conhecido pelo Marmelada, que fazia versos à moda antiga e se apresentava sempre elegantemente vestido, bem penteado, cheio de brilhantina no cabelo… e uma rosa na lapela!

L F

Por se inserir no contexto,
aqui deixamos o depoimento dum antigo aluno:

Lembro-me dum jovem, de alcunha Tó Plágio,


que se arrogava ser poeta repentista de quadras soltas.
Tentou cantar a saga de um Merdock "supostamente pensador" e, de entre as suas quadras, registei a seguinte:

Enxotam-me como um cão
Do liceu que eu conheço.
São homens sem coração.
Será isto que eu mereço?


VM

segunda-feira, 19 de abril de 2010

5 TOSTÕES











E quem se lembra deste selo de 5 tostões?
Nos tempos do Merdock
era para fazer seguir os postais... para os graúdos
ou para comprar 5 berlindes, para os mais miúdos...

quinta-feira, 8 de abril de 2010

1º ACTO



A verdadeira história do Merdock começou aqui. Neste Café de colunas em mármore, traça esbelta, clássica, como na Grécia Antiga.

Por esses anos passavam por aí ilustres figuras da cultura regional e nacional.

Era sem dúvida o Café mais importante da Província.

Também funcionava como uma espécie de bolsa de valores, onde os mais influentes comerciantes sedeados em S. Brás de Alportel Loulé e S. Bartolomeu de Messines, discutiam e decidiam os preços a pagar aos lavradores, pelos produtos algarvios mais típicos: o figo, a amêndoa e a alfarroba.

E, curiosamente (perdoem a abusiva analogia), também aí se decidiu a sorte do Merdock.

A sua história seria a mesma estória anónima, sombria e trágica de todos os seus pares caçados pelo laço implacável do Gaiana, encarcerados e abatido sem dó, se não viesse alguém a reclamá-los.

Seriam umas duas e meia da tarde.

A carroça dos cães andava por ali.

Todas as lojas ainda estavam fechadas, desde a hora do almoço.

Numa mesa, três alunos de capa e batina conversavam.

De repente, um deles levantou-se e foi na direcção da porta.

Um cão rafeiro, desesperado, tentava entrar, mas o criado (era assim que se dizia nesse tempo…) não o consentia, empurrando a porta giratória.

Então, o liceal, travou-se de razões com o empregado, despistando-o.

Aí, o cachorro aproveitou a suprema oportunidade, entrou pela porta dentro, atravessou num ápice todo o Café (abanando freneticamente a cauda quando passou pelos dois que estavam sentados), e escapou-se pelas traseiras.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

DEPOIMENTOS (1)


Efeméride da Libertação do Merdock

18 de Fevereiro de 1954

A propósito da efeméride dos 53 anos da manifestação que concedeu liberdade ao Merdock, recordo um diálogo que presenciei durante um almoço de confraternização entre antigos alunos do Liceu de Faro.
Sendo ambos sexagenários, com aparente jovialidade, questionava um deles:
"Para te localizar no tempo, dá-me uma referência de amigos ou colegas mais conhecidos"
Ao que o outro, de memória ainda viva, começou a citar nomes que, visivelmente, não teriam relevância ou significado temporal.
"Oh pá!! Simplifica as coisas! Saíste do liceu, antes ou depois do Merdock?"
E, com entusiasmo, ainda acrescentou:
"É que eu estava lá e participei na manif"...
Foi então nesta fase do diálogo que eu despertei para uma realidade, vibrante e consistente:
Muitos dos estudantes que participaram naquele movimento, e eram algumas centenas de rapazes e raparigas, ao descerem a avenida em direcção à baixa citadina, empunhando alguns cartazes alusivos ao Merdock, também queriam demonstrar a sua ânsia de liberdade.
Surgiu uma referência temporal para os antigos alunos do Liceu de Faro: A "Era do Merdock".
Fiquei a saber que tudo pode ser relativizado e que cada um pode adoptar a simbologia que lhe parece mais interessante.

Depoimento enviado por DL

quarta-feira, 24 de março de 2010

DEPOIMENTO (2)

Sensibilizado pela abordagem que tem sido feita à Saga do Merdock, vou tentar, por este meio, contribuir com a minha avaliação da atitude do grupo estudantil do qual eu, então, fazia parte.
No ano lectivo de 1953/54, o ambiente no interior do Liceu de Faro era de clausura e de austeridade mas, no exterior o clima, a luminosidade do céu, a paisagem, as flores emanavam vitalidade e convidavam a viver alegremente.
Afinal, estávamos no Algarve onde a natureza envolvente e as pessoas irradiam essa reconhecida forma de estar.
Traduz-se num constante apelo à liberdade, ao qual os jovens sempre foram sensíveis, sem confundir com a irreverência ou a libertinagem que, infelizmente, hoje abunda por aí.
Curiosamente, no liceu e nessa época remota, entre outros saberes também ensinavam a marcar passo, o canto e o coral, o amor ao próximo e o respeito pelos valores de cidadania.
Penso que, para além do português e da filosofia, da física ou da matemática, os alunos e alunas do liceu acompanhados por outros jovens da cidade, que aderiram entusiasticamente ao cortejo que descia a avenida cidade adentro, naquele dia, utilizaram os saberes apropriados à libertação de um simples rafeiro que se revelara ser amigo dos estudantes.
Corajosamente marcharam pela avenida e demais ruas da cidade até ao município, cantaram e gritaram pela liberdade do amigo, revelaram amor por aquele que nunca lhes negou um abanar de cauda, conseguiram legitimar a existência de um ser vivo aprisionado.
Este foi o gesto assumido por muitos jovens, aplaudido por muitos cidadãos que também ansiavam por alguma liberdade e observado por outros que, sem ousar manifestar-se,temiam pela perda de estatuto ou de privilégios adquiridos.
A imprensa cuidou de relevar a atitude estudantil.
A autoridade estabelecida tentou perceber o que se estava a passar.
Na minha opinião, este terá sido um grito de alerta para a liberdade, em nome do Merdock, que concedeu naquele tempo aos estudantes mais regozijo do que, então, poderia ser imaginado pelos seus tutores.
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V. A.

domingo, 7 de março de 2010

Os Ritmos da Paixão

A saga do Merdock foi um repositório de cenas variadas, muitas delas inesquecíveis.

Como é sabido, e hoje mais do que naqueles tempos, até um cão é obrigado a cumprir certas obrigações para com a lei (e ombrear com as custas ... ).

Para libertar o Merdock era necessário pagar uma multa, obter uma licença para usar coleira, ter a respectiva chapa de identificação (uma espécie de cartão de identidade) e ser vacinado.
Relato apenas esta última circunstância (sem grandes preocupações de estilo).

Foi em frente do antigo Matadouro, hoje Biblioteca Municipal, que o veterinário ministrou
as vacinas ao cachorro.

Num ápice, o homem viu-se rodeado por mais duma centena de liceais mais ou menos esgrouviados, mas ébrios de plenitude, ante a aproximação do momento tão desejado,
muitos deles vestindo capa e batina.

Fizeram espaço para uma roda e acotovelavam-se para assistir ao acto que permitiria o acesso
à plena cidadania e liberdade do nosso herói. No fim desse acto quase litúrgico, um dos responsáveis pela manifestação, perguntou quanto era.

Aí, o veterinário, a voz embargada ao olhar aquela pequena multidão frenética de briosos estudantes, disse que não era nada.

Que também já fora jovem... usara capa e batina... estudara em Coimbra...

De imediato soou um arrebatado éférrriá a vitoriar o veterinário e a sua afectuosa e desinteressada colaboração.



E então não é que o homem chorou, lavado em lágrimas... como uma madalena!...

E como haveria eu de ignorar a frágil representação da inocência,
o puro êxtase dos ritmos da paixão?
Merdock era um cão singular
e deu origem, em Faro,
a uma extraordinária
manifestação de solidariedade
que culminou na sua libertação.
Aqui se relembram
os factos e as personagens
envolvidas.
Veja também o meu blog de poesia