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videopoema sobre o Algarve de Ontem e notas etnográficas sobre as actividades da época

O LADRAR DO MERDOCK

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Não se assustem com o ladrar do Merdock.
Ele só embirra com polícias, guardas fiscais,
guardas republicanos e outras fardas!...



segunda-feira, 4 de julho de 2011

MERDOCK, VELHOS TEMPOS

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Às vezes ponho-me em sossego a recordar e penso atrás, próximo de cinquenta e tais anos de distância. Circulando pela memória de repente salto e venço o tempo, regressando às coisas bonitas na infância feitas e que, distraídos, não demos importância naquele tempo de medo surdo-mudo, oculto e tenso, imposto ao povo que o carregava na alma a toque de caixa, e jovens gritavam "liberdade pró Merdock".
Era um cão desmazelado, pelo amarelo sujo, vadio, pele-e-osso, meio-grande, orelhas partidas, rafeiro perdido na cidade, que apareceu muitos dias a fio à porta do liceu, e muitos estudantes, primeiro brincam com ele aos poucos, depois a tempo inteiro cada vez mais amigos, com sobras matam o fastio do cão, e por fim não deixam que alguém o enxote ou maltrate, tornando-se por adopção sua mascote. Naquele tempo não havia liga de defesa de qualquer bicho, mas havia a carroça dos cães e homens de cotim, com laços compridos, para caçar os sem dono que andavam no lixo. E um dia, caçaram o Merdock e lavaran-no para os paços do canil, contra os estudantes, que logo reuniram os escassos dinheiros para pagar a multa, e cheios de brio e capricho, dirigiram-se ao canil municipal, em jeito de manifestação pelas ruas principais da cidade, para libertar Merdock, o cão.
O caso foi falado por toda a cidade e no liceu, penso, onde mandavam os homens do regime, os reitores cara de ferro, tendo à frente o zeloso e sisudo Ascenso, vigilante dos profes duvidosos, possíveis opositores.
As opiniões dividiram-se na sala dos professores, pois julgava-se que não seria preciso haver consenso, acerca da iniciativa estudantil de tão prosaica medida, mas a gente da situação viu no caso, coisa escondida.
E tanto assim foi que, passado um mês e poucos dias o Merdock, apanhado de novo, foi enviado pró canil em clara demonstração de poder e força, às rebeldias dos estudantes que, perante a evidente atitude hostil, voltaram a desfilar em manif, (desobediência civil), com cartazes e bandeiras pretas (autênticas heresias políticas). Chamados perante as pequenas majestades locais, ficaram sob nacional ameaça de pidescas grades.
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José Neves, em Gorgeios

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Merdock era um cão singular
e deu origem, em Faro,
a uma extraordinária
manifestação de solidariedade
que culminou na sua libertação.
Aqui se relembram
os factos e as personagens
envolvidas.
Veja também o meu blog de poesia