O LADRAR DO MERDOCK

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Não se assustem com o ladrar do Merdock.
Ele só embirra com polícias, guardas fiscais,
guardas republicanos e outras fardas!...



terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O CÃO MERDOCK

MERDOCK, VELHOS TEMPOS

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Às vezes ponho-me em sossego a recordar e penso

atrás, próximo de cinquenta e tais anos de distância.

Circulando pela memória de repente salto e venço

o tempo, regressando às coisas bonitas na infância

feitas e que, distraídos, não demos importância

naquele tempo de medo surdo-mudo, oculto e tenso,

imposto ao povo que o carregava na alma a toque

de caixa, e jovens gritavam"liberdade pró Merdock".

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Era um cão desmazelado, pelo amarelo sujo, vadio,

pele-e-osso, meio-grande, orelhas partidas, rafeiro

perdido na cidade, que apareceu muitos dias a fio

à porta do liceu, e muitos estudantes, primeiro

brincam com ele aos poucos, depois a tempo inteiro

cada vez mais amigos, com sobras matam o fastio

do cão, e por fim não deixam que alguem o enxote

ou maltrate, tornando-se por adopção sua mascote.

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Naquele tempo não havia liga de defesa de qualquer bicho,

mas havia a carroça dos cães e homens de cotim, com laços

compridos, para caçar os sem dono que andavam no lixo.

E um dia, caçaram o Merdock e lavaran-no para os paços

do canil, contra os estudantes, que logo reuniram os escassos

dinheiros para pagar a multa, e cheios de brio e capricho,

dirigiram-se ao canil municipal, em jeito de manifestação

pelas ruas principais da cidade, para libertar Merdock, o cão.

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O caso foi falado por toda a cidade e no liceu, penso,

onde mandavam os homens do regime, os reitores

cara de ferro, tendo à frente o zeloso e sisudo Ascenso,

vigilante dos profes duvidosos, possíveis opositores.

As opiniões dividiram-se na sala dos professores,

pois julgava-se que não seria preciso haver consenso,

acerca da iniciativa estudantil de tão prosaica medida,

mas a gente da situação viu no caso, coisa escondida.

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E tanto assim foi que, passado um mês e poucos dias

o Merdock, apanhado de novo, foi enviado pró canil

em clara demonstração de poder e força, às rebeldias

dos estudantes que, perante a evidente actitude hostil,

voltaram a desfilar em manif, (desobediência civil),

com cartazes e bandeiras pretas (autênticas heresias

políticas). Chamados perante as pequenas majestades

locais, ficaram sob nacional ameaça de pidescas grades.

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José Neves, em Gorgeios


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Merdock era um cão singular
e deu origem, em Faro,
a uma extraordinária
manifestação de solidariedade
que culminou na sua libertação.
Aqui se relembram
os factos e as personagens
envolvidas.
Veja também o meu blog de poesia