O LADRAR DO MERDOCK

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Não se assustem com o ladrar do Merdock.
Ele só embirra com polícias, guardas fiscais,
guardas republicanos e outras fardas!...



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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

NEVE EM TODO O ALGARVE

Neve em Faro


Estávamos nos últimos dias de Janeiro de 1954, fazia um frio de “rachar”. Na subida para o Liceu, avenida a cima, enrolávamos o corpo nos casacos, abotoados até ao pescoço. Da boca saia “fumo” branco e o nariz gelava.
Para nós, jovens, era divertido transformar em brincadeira o rigor da invernia.
- Vamos todos a fumar para o Liceu!!!...
- O que dirá o reitor???...
Eu andava na explicação da Brites, que morava no Alto Rodes, para onde ia, de tarde, depois das aulas.
No dia 2 de Fevereiro, pela manhã, o frio era fora da normalidade, nem conseguíamos escrever, tão geladas tínhamos as mãos.
À tarde, quando saio da explicação, olho a rua e vejo-a toda branca e flocos a caírem do céu.
Era inédito, nunca tinha visto coisa igual, só no cinema…
É necessário salientar que na época, estudávamos a formação de neve, granizo, nevoeiros e outras coisas mais, mas tudo era teórico e as gravuras dos livros eram escassas e a preto e branco.
Entro de novo, vou até à sala das explicações e digo:
- D. Brites, parece que está a cair neve!!!...
- És parva ou quê? Neve? Impossível!!!...
Vou de novo para a porta da rua e fico extasiada com o espectáculo… Seria mesmo parva? Não queria arriscar outro adjectivo menos favorável…
Aguardei mais tempo, numa correcta observação, em pormenor, pus a mão de fora a aparar o que caia do céu, pus o pé no chão calcando o manto branco, abri os braços, já na rua, olhando o céu… Flocos de neve caiam-me no rosto, no corpo encasacado, entro de novo em casa e digo:
- Venham ver!!!
A D. Brites, que tinha a filhita pequena ao colo, sentada numa cadeira baixa, quase joga a moça ao chão e corre pelo corredor da casa, em direcção à rua. Atrás dela todos os explicandos, em procissão descompassada.
- Oh! Oh! Incrível!!...
Nenhum dos presentes tinha visto neve, nem os vizinhos, que já se tinham apercebido de algo extraordinário, e apareciam às portas, todos de “boca aberta”.
Começámos logo na brincadeira, raspando o chão com as mãos, fazendo bolas e jogando uns aos outros.
Finalmente, arranquei para casa, e no Largo do Carmo encontro a mãe que me ia buscar, ao ver a minha demora.
O piso estava tão escorregadio, que nos tínhamos de agarrar uma à outra. Foi uma risada até casa. A neve continuava caindo e até parecia, que o frio tinha quebrado.
O polícia sinaleiro, que estava de serviço na altura, era o Carlos, amigo da “pinga”, que tinha o hábito de dar escapadelas, até à tasca do Fontinhas, beber um copito. Na tasca, havia sempre, no balcão, um copo à sua espera. De fugida, no momento de menos trânsito, que ele controlava no Largo da Palmeira, ia até à tasca, emborcava o vinho sem respirar, e saia lambendo os beiços.
Nesse dia de Inverno, o sinaleiro Carlos cambaleava, no seu posto de trabalho, e pensámos que estaria “alegrote”.
Estávamos todos às portas de casa, divertidos, apreciando o espectáculo e reparando que o céu tinha uma tonalidade diferente do habitual, estava brilhante como prata…
A mãe presta mais atenção ao polícia, aproxima-se e pergunta-lhe se se sentia bem. O homem já não falava. Parado, no meio do largo, vestido com a farda de sinaleiro, coberto de neve, tinha gelado.
Trouxeram-no para minha casa, deram-lhe um copo de aguardente, limparam-lhe a neve, despiram-lhe o casaco dos galões, todo molhado e taparam-no com uma manta. A mãe telefonou para o posto e vieram buscá-lo.
No outro dia, a ida para o Liceu foi uma festa. A neve já não era fofa, era gelo escorregadio…
A meio da manhã, tínhamos, nesse dia, duas horas seguidas de aulas com a D. Loide Chumbo, Português e Francês. Ninguém conseguia concentrar-se nos trabalhos e menos ainda com esta professora, que não conseguia dominar as turmas.
Estávamos de pé, numa algazarra ensurdecedora e gritávamos às janelas da sala de aula.
Então, a Adelaide Costa, sai da sala sem que a professora se aperceba e regressa batendo à porta, com insistência. Silêncio absoluto, será o reitor, fizemos tanto barulho…
- D. Loide, há autorização para irmos brincar na neve, na rua – diz a Adelaide.
Ninguém soube o que disse a D. Loide. Saímos de roldão, corremos pelo corredor, descemos as escadas e saímos para a rua.
Foi um espaço de tempo maravilhoso… até aparecer o senhor Sortibão, muito enrascado a falar com a professora.
Voltámos para dentro e a D. Loide, levada pelo contínuo, foi directa à reitoria.
Sabemos, que ela andou “murcha” durante uns tempos…
Sabemos, que todo o Liceu sofreu de inveja, da turma feminina, que saíra à rua a brincar na neve…

Lina Vedes - 25 Janeiro 2008

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

NATAL 2007

Poemas de Natal #1

Naquela noite fazia frio fazia pena
ver almas despedaçadas deitadas corpos entrouxados
dispersos nas calçadas luzidias do passeio das ruas

Caía uma névoa fina que simulava chuva punhais
de raiva e resignação ou antes uma levada de mágoa
de murmúrios sem data sem fumo sem restos de cio
perdidos num mar de pedras nas calçadas da rua

Era uma noite de claustros tambores rufando clamando
os clamores da vida a náusea descrente na boca sofrida
o granito fundido já duro das lutas perdidas
pisado nos ossos nos ombros nos olhos que olham
as coisas por fora nas coisas por dentro
e as noites nos dias e os búzios na praia sem vento
soprando as pedras do passeio da rua

Doía a quem doía não fora a noite uma noite
de aprazimento em todas as aldeias da cidade
tempo de alegrias acepipes farturas alvarinho
em casas abastadas sobranceiras aos passeios da rua

o mais vago grave desígnio dum oráculo de plenitude
na inocência das crianças nas crenças na sentença
dos mecanismo que levam ao enternecimento
por ver a chuva a cair sobre corpos alheios
prostrados enrodilhados sobre o passeio da ruas

O número II de "3 Retalhos para um Retábulo", em "Poemas de e para o Natal", Ed. Mic

Merdock era um cão singular
e deu origem, em Faro,
a uma extraordinária
manifestação de solidariedade
que culminou na sua libertação.
Aqui se relembram
os factos e as personagens
envolvidas.
Veja também o meu blog de poesia